Relatos de Corredores

 

        Nesta seção você poderá relatar as suas experiências como corredor. Conte-nos qual foi a melhor corrida da qual você participou. Para perpetuar aqui a sua experiência é só nos enviar um e-mail.
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        Maratona de São Paulo
18/08/02
- Wagner Pereira - SP
     
               
        Sou maratonista, triatleta e atualmente treino para o Ironman de Floripa. O meu relato sobre a Maratona de SP é este. Parabenizo você pelo site, o qual acompanho a alguns anos.

Valeu a pena cada dor sentida nos 42 km da Maratona, acabei de ver o resultado oficial e melhorei muito, após 4 maratonas, consegui chegar em 240 na minha categoria (uma das mais disputadas) e pela primeira vez entre os mil primeiros (no tempo corrigido), fiz em cerca de 3horas e 27 minutos.

No início fiquei com medo de nem completar a prova já que tinha saído de casa com uma baita dor de barriga; fiquei pensando: " e se me der um revertério ....o que devo fazer ?". Passaram-se dez kilometros e veio uma dor esquisita no tornozelo direito (engraçado pensei; esta dor é novidade para mim), continuei porque sabia que era frescura, mais 5 kilometros e surgiram dores antigas e mais sérias.

Infelizmente como vinha me dedicando mais ao ciclismo, o estado dos meus quadrícipes não era dos melhores, ainda mais porque fui participar da volta ciclistica 9 de julho. Porém quando a dor vinha eu tentava me concentrar e mentalizava as coxas e forçava mais ainda o ritmo, tinha que vencer esta dor, a corrida ainda estava no seu início.

A medida que corria, via antigos colegas de outras maratonas e meias maratonas ficando para tráz, colegas que sempre chegaram na minha frente, em inúmeras provas. Primeiro a japonesa, depois o meu companheiro Ronaldo Eustáquio fotógrafo em BH, depois Luizinho que é personal da Equipe Tavares, mais adiante RECIFE que é jardineiro e patrocinado por um deputado de Pernanbuco, mais adiante Iodece que é mecânico em BH. Por cada um que passei , deixei uma palavra de incentivo.

Mas nem tudo era perfeito, já na entrada da USP percebi que estava com bolhas nos pés, elas de novo !!! (tal fato já havia acontecido na Maratona de Curitiba), sabia o que fazer: tinha que evitar pisar com a ponta dos pés, tinha que concentrar os esforços no calcanhar, mesmo nas subidas.

No geral o meu estado era bom, sabia de que estava com muito gás, tinha me hidratado de forma super consciente, estava fazendo uma corrida super concentrada, os kilometros passavam como em um filme, as crianças com as mãos estendidas, os aposentados gritando PENTA . E ainda dizem que os paulistas são frios e impessoais.

As dores musculares nas coxas aumentavam e as bolhas estavam incomodando muito, mas o meu estado geral era bem confortável. Pensei comigo "vou puxar mais para acabar com a agonia".

Porém ao entrar na Juscelino, faltando 5km , percebi que o meu gás estava acabando, eu que vinha passando muita gente desde o início, passei a ultrapassar só um ou outro, sabia que faltava pouco. Como rezei. Sabia que se parasse por um segundo as minhas coxas iriam travar e aí para terminar a prova, só mancando.

Tentei manter o moral e talvez com o rosto transfigurado pela dor, continuei, tamanha foi a felicidade ao avistar o velho IBIRAPUERA de tantos treinos em tantas manhãs acordadas às 5:00 hs.

Lembrei como tinha negligenciado a corrida neste semestre, sei que tenho uma meta maior e assim procurei neste semestre tirar todo o atraso da natação, e tentei acima de tudo pegar os macetes da bike, já que praticamente faziam alguns anos que não andava de bicicleta.

Finalmente estava chegando e a platéia era exigente, gritavam : " vamos lá, força, falta pouco, só mais um kilometro, raça, etc". Tinha que chegar em alto estilo, assim me poupei um pouco, tinha que chegar com a cabeça erguida e com uma velocidade boa, me concentrei e num piscar de olhos cruzei a linha de chegada ...ufa !!!

Acabou ....Valeu a pena !!!

     
               
               
       

Maratona de São Paulo
14/07/02
- Fernando Fragoso - SP

     
               
        Nunca imaginei que fosse tão fácil. Sim, correr os 42 km da maratona. Por vários anos, a idéia de superar a distância me parecia impossível. Comecei a correr com o objetivo de perder alguns quilos. O Henry estava envolvido no treinamento para o Ironman e eu havia lido uma matéria na Revista Trip sobre o Ultraman (10 km de natação, 420 km de ciclismo e 84 km de corrida). Em maio, após disputar algumas provas de 10 km, resolvi participar da Maratona de São Paulo. Sem desculpa. Com 25 anos, precisava de mais movimento.

Com chuva ou sol, lá estava eu, correndo 10 km, 15 km ou 20 km (os treinos mais longos que fiz). Ao todo foram quatro meses de treinamento e alimentação controlada. Nada de gordura, doces, bebidas, chocolates ou refrigerantes. Foram 600 km suando e muitas vontades não realizadas. Essa é a fase mais difícil: a dedicação, a disciplina. É preciso querer fazer. Aos poucos, com a melhora da performance, o treinamento vai se tornando uma rotina agradável. Até vicia.

Convidei meu irmão para participar. Mesmo sem quilometragem na canela, Osmar, 21, aceitou cheio de disposição. Comecei a procurar informações na internet e lí vários depoimentos de corredores. Muitos se referiam a prova como “um monstro”, “o desafio”. A história/lenda da maratona diz que Pheidíppides sacrificou sua vida percorrendo 40 km entre as cidades de Maratona e Atenas, na Grécia. O corredor anunciou a vitória grega sobre os persas e caiu morto, em 490 a.c. Com certeza, o primeiro passo é acreditar que você consegue. Depois vem o treinamento, a alimentação e o descanso (sono).

Num sábado gelado, retiramos os kits - número, chip, camiseta e regulamento - no Ginásio do Ibirapuera. Com o mapa da prova, defini os intervalos que deveríamos comer, beber e tomar os comprimidos de BCAA (aminoácidos). Estava visivelmente feliz. Confiante. Mais macarrão, despertador marcando 6 horas e cama. Será que vai chover?

Depois de um bom café da manhã, seguimos para o Pacaembú, local da largada. Alongamento e mentalização. O tiro de canhão que me assustou, era o sinal pra começar a correr. Sol e céu azul em Sampa. Os primeiros 8 km segui com meu irmão, dando risada. Tem cada figura fantasiado. Logo nos separamos. “Numa maratona, você deve se sentir confortável”, ensina Ken Glah, 20 anos de Ironman.

Controle do ritmo, hidratação e alimentação são fundamentais durante a prova. A medida que a quilometragem aumenta, mais emocionante fica a competição. Muitos correm conversando, em grupos. Preferi correr sozinho. As vezes escutava os comentários de outros corredores. Alguns estavam preocupados com a USP (15 km à frente), outros já pensavam no km 32 (à duas horas de distância). A barreira psicológica, o possível fracasso, ia se manifestando. Não podem existir dúvidas. Mantive o ritmo.

No km 20, estava inteiro e devidamente aquecido. Perto da Praça Panamericana encontrei o Formiga posicionado para fazer as fotos. O relógio marcava pouco mais de 2 horas. Sempre concentrado, estava feliz em realizar o sonho de correr a maratona. Segui firme, com a meta de terminar a prova em menos de 04:30 h. A torcida e o incentivo das pessoas que assistem, motivam até os mais acabados.

Difícil é ficar quatro horas sem falar. Para quebrar a solidão, incentivei muita gente. “Vamos lá, você consegue”. Com isso eu ganhava força e afastava os pensamentos negativos. Lembro de cantar trechos de músicas. Dançava correndo! Só alegria. Depois do km 30, a corrida muda. Ninguém mais dá risada. Ninguém conversa. Alguns estão deitados no chão. Outros fazem massagem. Comecei a ultrapassar pessoas que empurravam as pernas com as mãos. Nesse momento dei valor ao treinamento. Sem dores, procurei não me impressionar com o que via. Concentração.

Logo já corria no túnel do km 37. A prova estava terminando! Aquela cena de batalha que relatei acima, tornara-se mais crítica. Senti uma certa ansiedade, queria terminar logo, e acelerei o passo. Pensava nos treinos, na dedicação e disciplina. Tive vontade de chorar de alegria. Cruzei um cara quase parando. “Minhas costas estão doendo”, reclamou. “Engane o seu cérebro. Você não está sentindo nada”, respondi sem piedade.

Embalado, cruzei a linha de chegada com 04:18:28 h. Não pulei, nem gritei. Apenas levantei o braço. Realizar um sonho não tem preço. Vibrei com a chegada de inúmeros anônimos e fiquei emocionado quando ví meu irmão pisar no tapete (05:13:09 h). Valeu. A Maratona de São Paulo me mostrou que nada é impossível. Com planejamento e determinação, você também poderá afirmar que foi fácil.

Algumas frases que me ajudaram nos momentos de preparação:

"Ironman é mais uma corrida contra você mesmo do que uma própria competição. Você tem que manter monitorado o seu corpo, ajustar a sua passada, beber e comer. É uma corrida forte mentalmente em que é preciso se preocupar não na intensidade, mas no conforto e controle do ritmo".
Ken Glah

“Corrida de aventura é estar confortável em situações que não são nem um pouco confortáveis. Ou seja, se você quer treinar para ficar bom, comece pela sua cabeça. Não ache qualquer coisa chata ou desconfortável, brinque de enganar o seu cérebro”.
Sergio Zolino

"Não se preocupe com o ritmo dos outros. Controle os seus sentimentos e emoções, pois na prova você terá vários humores. Em São Paulo, infelizmente, a maioria das pessoas não fazem a prova toda. Portanto, não se importe com o que acontece ao seu redor. A chegada é sempre um momento único para quem termina. Aproveite e curta o seu feito".
Alfredo Donadio

Fernando Fragoso, 25, é navegador e diretor da www.rallybrasil.com.br.

     
               
       

Percurso da Maratona de São Paulo

  Sugestão de Fernando Fragoso

Livro: A Semente da Vitória
Autor: Nuno Cobra
 
     
               

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