A n t u é r p i a 1920
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A primeira Guerra Mundial
tinha acabado dois anos antes, mas a Europa ainda vivia
um clima de luto. Antuérpia, na Bélgica, realizou a
sexta edição das Olimpíadas com recordes: 2.543
homens, 64 mulheres e 29 países. O domínio americano
foi absoluto: 96 medalhas (41 de ouro) contra 63 da Suécia
(19 vitórias). O Brasil marcou sua estréia, enviando 29 atletas, e saiu com 1 medalha de ouro, uma de prata e uma de bronze. Sempre amarrados à política, os Jogos não convidaram Alemanha, Áustria, Hungria e Bulgária. O que não se viu muito foi público, a ponto de o rei Albert, da Bélgica, declarar: "É tudo muito bom, mas faltam as pessoas". |
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| Do ponto de vista esportivo,
Antuérpia marcou a estréia do maior atleta de longa
distância da história das Olimpíadas, o "finlandês
voador" Paavo Nurmi. Ele ganhou medalhas de ouro nos
10 mil metros e em duas corridas de cross country. Nas
Olimpíadas seguintes, de 1924 e 1928, Nurmi continuou a
dominar as provas que disputou, conquistando ao todo nove
medalhas de ouro e três de prata. Ninguém jamais chegou
perto de seu desempenho:o finlandês estabeleceu recordes
mundiais em todas as distâncias em que competiu. Foram
22 recordes, dos 1.500 metros aos 20 mil metros. Aceitando pagamentos "por debaixo do pano", Nurmi conseguiu escapar de qualquer punição até 1932, quando não foi aceito na maratona das Olimpíadas de Los Angeles. A maratona, aliás, foi a única corrida de longa distância que ele nunca disputou. Mais tarde, Nurmi se isolou do mundo, tornando-se conhecido por suas propriedades imobiliárias e por sua avareza. Quando sofreu um ataque cardíaco quase fatal no final dos anos 60, entretanto, anunciou uma doação generosa a uma fundação que financiava pesquisas sobre o coração. Na época, concordou em dar uma entrevista. "Corria por mim próprio, jamais pela Finlândia", disparou. "Nem mesmo nas Olimpíadas. Ali, mais do que nunca, Paavo Nurmi era o que importava". No início da década de 70, soube-se que Nurmi estava alugando um de seus muitos apartamentos em Helsinque (capital da Finlândia) por metade do preço para o conterrâneo Ville Ritola, único corredor que o havia derrotado e que agora se encontrava velho e doente. Os dois competidores nunca se deram bem. Nurmi morreu em 1973, aos 76 anos. Os Jogos de Antuérpia marcaram o início da aventura olímpica brasileira. Cheia de improvisações e dificuldades, a delegação teve seu grande destaque no tiro ao alvo. Em Antuérpia, surgiu o primeiro herói olímpico do Brasil, o tenente do Exército Guilherme Paraense, vencedor do tiro com revólver. Havia também atletas do pólo aquático, natação, remo e saltos ornamentais. A criatividade foi a grande arma da equipe brasileira de tiro, responsável pela conquista das três medalhas do país. Após cruzar o Atlântico em um navio de terceira classe e de precisar completar o percurso de trem para não chegar atrasada, a delegação brasileira teve outra surpresa ao desembarcar em Bruxelas. Quase toda a munição e os alvos da equipe de tiro haviam sido roubados. O chefe da equipe, Afrânio Costa, fez amizade com dois grandes atiradores norte-americanos, após uma partida de xadrez, e conseguiu 1.000 cartuchos 38, 1.000 balas 22 e 50 alvos, que tinham sido feitos especialmente para a equipe dos EUA. Impressionado com a péssima qualidade das armas utilizadas pelos brasileiros, o capitão da equipe de pistola livre dos EUA, coronel Snyders, emprestou dois revólveres especialmente produzidos para o time norte-americano pela fábrica Colt. Em pouco tempo os brasileiros mostraram do que eram capazes. Afrânio Costa ficou com a medalha de prata na categoria individual pistola livre, totalizando 489 pontos, perdendo apenas para o norte-americano Carls Frederick (com 496 pontos). E a equipe brasileira - formada por Afrânio Costa, Guilherme Paraense, Sebastião Wolf, Dario Barbosa e Fernando Soledade - levou o bronze. Mas o melhor estava reservado para a prova de revólver à distância de 30m. Com o Colt emprestado pelo coronel, Paraense somou 274 pontos e derrotou o grande favorito, o norte-americano Braeken, conquistando a primeira medalha de ouro do Brasil. Os campeões foram recebidos com festa por aqui. Guilherme, mais tarde promovido a coronel, nasceu em Belém, em 1885, e morreu em 1968, no Rio. |
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